domingo, 30 de março de 2014

Salut, Paris.



Encontro teu rosto. Mesmo depois do existencialismo, ainda é em Paris que me sinto bem. Tu faz um ruído bonitinho e me aproximo, entrelaçada nas tuas histórias. Sorrio. Tu sempre quer saber por que sorrio. É por tua causa, mas não me atrevo à honestidade. É cedo. Ou tarde, sempre a perspectiva. Levanto num salto.

Tento me vestir sem sequer te olhar de longe, mas é incontrolável. Como dançasse pela cama, teu corpo em sinfonia, tão perto. Tão perto a distância. Mas agora e ainda tão próximo. Então abraço. Tu me puxa para junto de ti. Viro o rosto. Não vai me ver chorar.

São apenas duas lágrimas. Duas pessoas que se desencontram novamente: nada mais banal. Mas, entenda, deixar Paris é uma das batalhas mais difíceis que há. Deixar uma Paris que te leva no colo torna a tarefa impossível. “Ill see you soon”, tu me diz, e na minha língua colada mil vezes a pergunta “you promise?”, mas não lhe deixo escapar. Tu ainda não me sabe assim frágil. Assim encantada com teu pescoço. “That´s good”. (Queria ter tido uma resposta mais espirituosa, mas só não chorar tomou tudo de mim).

Sempre chove quando a gente se despede, mas não vou te falar disso. (Talvez um pouco de medo de não o teres percebido – por quantas metáforas ainda passaremos?). “Please, don´t explode in Lebanon.” Tu sorri e me deseja uma boa semana de freshman. Sorrimos. “Ill see you soon.” Por favor, prometa. Por favor, me prometa vir, ainda que eu não peça. (E eu jamais pediria). Mas isso não é motivo para que não o faça. Ainda que tu não vá. Até melhor, a promessa durará mais se não for cumprida. E com ela a tua espera.

“Saying goodbye to you at the metrô – I remember that”, te digo. Tu me beija e sentencia “yes, we´re travelers.” E por fim sei que também sabe. Que no fundo é tão amaldiçoado quanto eu, colecionador de despedidas. Movimentando-se para não se perceber vazio, sentindo tontura para sentir alguma coisa; ser chama e inalcançável pelo tempo. Viver não aceita disfarces. A busca reiterada e impossível por algo que te faça jamais sair de lugar algum – e viajar é o único modo de encontrá-lo. (Ainda que o perceba inexistente). Não posso te oferecer raízes. Somos apenas folhas. E é sempre vento na Bretanha.

Foi na estação de trem que senti teu cheiro na minha roupa. Como de propósito, um punhal nos meus sentidos. Teu cheiro invadindo minhas saudades. E então me lembrei da tua voz, teu rosto inclinado junto ao meu, cantando Gonzaguinha, “é a vida, é bonita, é bonita e é bonita”. Um leve sotaque parisiense temperando a música. Brasil e França em desalinho nos teus lábios. Cantarolo junto, minha mão enroscada na tua. Tu acende um cigarro enquanto exploro cada parte dos teus dedos. Mais uma vez, pegamos o metrô. Sentamos ladoalado, assim mesmo, sem espaços possíveis entre as coxas. Segura meu rosto e abreviamos nossa conversa. Eu e minhas alegrias em uníssono na tua boca.

Tu me ensinou a fazer café, sem supor o quão chato seria tomá-lo longe de ti, a ponto de eu não fazê-lo. Riu da minha angústia frente às inépcias todas (e tantas) minhas. Tem outras tantas coisas em que eu sou boa, mas dessas não quis te falar. Preciso estar segura, quando não vieres, de que havia motivos para que não o fizesse. Ainda assim, guardo tua letra atrás de uma receita de crepes. É o mais perto que cheguei de te fotografar. Como poderia tirar uma foto contigo? Tu é vivo demais. Tu é contingente demais para posar estático ao meu lado pelo tempo infinito das imagens. Não seria possível. Mas já agora, logo mais no trem, a duas horas de Rennes, me arrependo. Teu rosto será total dependente da minha memória.

Eu também.

Fecho os olhos enquanto o trem parte e tu chega novamente de Londres. Uma reprodução de Degas na mão para me dar. A mulher se secando após o banho, como tu me viu fazer por dez dias de vezes. Tornando teus braços toalhas, meu corpo brinquedo. Meus olhos como crianças no balanço, as pernas embalando o vento. As mesmas pernas que agora tremem, que agora caminham para longe, ainda que o coração, mas o coração é inamovível. Deixo-o ficar onde deseja, ainda que eu parta e, nisso, seja partida.

Eu, viajante pelo teu corpo, andarilha da tua casa. Tu, flâneur das minhas manhãs. Tento não pensar que talvez, se eu ficasse em Paris, mas não. Não vou ficar em Paris. Ela já está a uma hora de distância, e tu está a caminho do Líbano agora. Me dói por inteiro. Mas não faz mal.

I´ll see you soon.

Estratégias

É mentira. Eu não quero você para mim. Não saberia o que fazer. Gosto de te dividir com teus projetos e planos. Gosto de me sentir viva enquanto meu coração arrebenta e rasga chegando à conclusão lógica de que não te verei outra vez. Corações não deveriam procurar soluções lógicas. Mas o meu se estraçalha, chorando a morte futura e inevitável deste amor que nunca aconteceu senão por tangente. Não vou me recuperar fácil. Por que não chorar do que invento? Por que não viver do que invento? 

Você não é o amor da minha vida. Você é minha tentativa de amar alguém.

Presente insone



No meu primeiro dia, não queria dormir. Entendam, enquanto me mantivesse acordada, ainda o teria visto naquele mesmo dia. 

Dormir significaria transpassar uma barreira perigosa: ao acordar, faria um dia que não o veria. Um dia ao qual todos os outros sucederiam naturalmente e, em segundos, faria mais tempo que eu não o via do que o que poderia suportar. 

Dormir não era possível. 

Mas sou fraca e dormi. E com o sono, o que era real, o que era carne e abraço, tornou-se memória. Que hoje se solidifica como passado e que a cada dia será mais ilusão e aperto. 

Dormi e ao acordar já fazia um dia. Um dia desde que tudo que vivera como magia e permanência chegara ao fim. Um dia desde que tinha acordado ao lado dele. Um dia desde que tinha olhado pra janela e visto aqueles prédios típicos. Um dia desde que comprara croissants pela manhã. Um dia desde que olhara para o Sena e imaginara como devia ser viver ali sem medo de uma data terrível cada vez mais próxima, até que ela me engolisse. Um dia desde o aeroporto e aquela voz me dizendo em um português coisa-mais-linda-do-mundo "não chora". Um dia desde que chorei tanto. Mais um dia. Mais um. 

Dormi e, por culpa desse meu desleixo, agora ele não passa de memória. Dormi e agora ele está perdido. Era só ter mantido os olhos abertos e ainda agora o teria tocado, teria apertado firme seu braço e brincado pelo seu peito ainda hoje, mas dormi. 

Como é ruim dormir longe de alguém que dormia tão bonito. 

Dormir longe até que o corpo seja uno mais uma vez. 

Até que o corpo se acostume à presença silenciosa dos lençóis. 

Não quero mais que aconteça, e estou certa de que não acontecerá. Não assim, com tanta admiração. Desprezo pessoas. Não julgo se é bom ou ruim, mas atesto: desprezo pessoas. Um erro de português, um comentário machista, um brado homofóbico e a pessoa é riscada sem remorso da minha lista de contatos. 

Ou seja, nunca mais. Nunca mais algo que combine tanta admiração com tanto afeto e, ao mesmo tempo, tanta liberdade. Paris não acontece duas vezes. 

E, agora que já dormi, Paris volta a ser o que foi por anos, aquele sonho inatingível e místico, cheia de pontes e gente fascinante por atravessá-las. 

Eu, na contramão, atravesso oceanos. 

Meu período varguista,

Te nacionalizo e te ofereço fronteiras. Eu, apátrida dos teus braços, refugiada na tua íris. Eu, que construo castelos de areia nos teus cabelos. Você, que colocou o mar dentro do meu peito naquela primeira vez, tão longe. 

Eu sei que sou por excessos. Você tem o comedimento de um continente de guerras e fome. Eu tenho a pressa de país que se desenvolveu mais tarde. Sou ansiosa, pulo e afasto o gato. Mas se eu te afastar de mim, nenhuma pressa bastará. Nenhum dia será tropical o bastante. Nenhuma melodia será bossa-nova. Será sempre chuva nas minhas veias. Você, o maior segredo das minhas mentiras. A voz que me versa e me inverte e me desprende de tudo que eu fui, que muda violento a rota dos meus planos, os ventos da palma da minha mão. Uma corrente marítima, como Humboldt, seu nome ficaria bem em uma corrente marítima. E eu, navio ancorado no fluido da tua voz. Ao sabor da corrente que você me deu, a pequena corrente de prata para que meu pescoço valesse alguma coisa longe de ti. 

Que idéia mais imbecil, valer alguma coisa longe de ti.

Espetáculos


Pós-modernismo como, se o coração da gente é tão antigo?

Emaranhado de ficção e unhas, o amor que criei para ti.

A fumaça do cigarro embaralhando teus olhos.

Como mágico, desapareces envolto na neblina das tuas mãos.

Como criança, acredito.

E procuro.

E procuro, e procuro, e procuro.

Teu desinteresse ainda é truque,

ou o fim da mágica?

Clique


 Bombonas de água fria e o manjericão que cresce e cresce e até onde vai o natural? Te espero na porta dos meus soluços, ainda lembra o número? O número do meu sutiã, que levava horas para escolher e, tu, alguns segundos para tirar. A não ser quando emperrava e eu ria e dizia que sexy e tu ria também e aí sim que nunca conseguia e então eu dizia deixa que eu tiro, mas era questão de honra que tu o tirasse. Antes a honra era casamento. Agora é tirar o sutiã.

Mas sempre achei que honra fosse coisa de gente reprimida, e completamente encontrados um no outro, não nos serviam as repressões. Então brincávamos como crianças que podiam se sujar sem os gritos histéricos da mãe, os gritos ultrapassados do catolicismo. Às vezes com o horário marcado, tenho quarenta minutos até a próxima reunião, ok, em sete segundos te desabotoei, trinta e nove minutos e 53 segundos. Vem, me dá tua boca aqui. 

Mentira, tu já trabalhava de cuecas, aquelas cuecas bregas de gente velha, seu brega, e ria das tuas roupas porque elas pouco me importavam e amava tanto que elas pouco te importassem também, e ficava ao teu lado, decidindo onde ir ou o que comer ou o que escrever. Nunca tive coragem pra te contar que escrevo, pra te contar que escrevo de ti, para te contar que não te esqueci. 

É por isso que tu gosta de mim, tu me diz confiante, respondo que não, é por isso, digo, com a mão ali, que vergonha que ainda tenho de escrever isso, meu puritanismo residual, minha mão ali, no teu pau, é por isso que gosto de ti. E é brincadeira, mas vejo por um milésimo de segundo o turvo da dúvida nos teus olhos de sol, e me arrependo na hora. Sei que não sabes de nada disso, mas o preço da informação, quanto me custaria? Te perco, se souberes que te amo te perco, porque não me amaria. Não podes me amar. É perfeito demais pra isso.

Conhece o mundo inteiro por apelidos, e mal sei chegar em casa. Conhece a extensão e a potencialidade do silêncio, e preciso tanto falar. Porque do teu silêncio sinto medo. Acho que não caibo nele. Se parar de falar vou me dar conta de que nunca tive absolutamente nada a dizer. Acho que ando meio mal, pequeno. E vou até aí e finjo que está tudo ótimo, com aquela soberba norte-americana, awesome, amazing, incredible, mas no fundo francesa, no fundo pas mal, pas grande chose, pas, pas, pas. 

Acho que nunca menti tanto para alguém. 

Irônico, logo para ti, que é a única verdade que sei.

Lunae

 A lua está sempre grávida do próximo dia, te comento, e tu ri e me diz que é uma pena que ela não aborte alguns. Mas os dias contigo, não. Esses eu não quereria abortados. Que bom que vivessem até a meia-noite. Até o primeiro grito, que do espaço não se ouve, mas os mais perceptivos sentem, do nascer do dia seguinte.

Que os dias nasçam tanto parece bom, quando a gente sabe que vai conhecer alguém que nem tu um dia.

Claro, outro dia, quando a lua der vida ao dia que vai te levar embora de mim, vai doer bastante.

Mas já doeu antes também, até que em outro parto da lua passou.

Teus olhos brilham do tamanho de todas as luas que já vi.

O problema é a falta de gêmeos, tu me diz.

A lua nunca vai conseguir ter dois dias iguais a este.

Visão


Sou míope para fora e para dentro.

Queria repousar no embalo suave dos teus cílios. Então não precisaria enxergar mais nada. Tu embaça todos os meus sentidos como fosse temporal.

Confunde a língua, e já não sei onde tu é doce e onde é amargo.

De qual cheiro eu gosto e de qual eu preciso.

Se a Anvisa soubesse o que me causas, tu seria proibido.

E traficado.

Tu, a única droga que me faz dançar.

E ver o mundo colorido.

2011

Eu, esperando aquela ligação que você nunca pensou em fazer.

Any

Don´t you expect me to be alright. Wish me dead instead. Don´t you dare to be polite. You´re my past and I´m yours. We´re New Years´ ennemies. I never faked it with you. Let´s not start it now. 

You know me too well to wish me any good.

Preliminares


Eu, ziguezagueando por entre teu olhar. Meio agitada, meio maluca, meio intensa. Tudo armação. Teatro de primeira série. Simulacro vulgar. 

Quero silêncio e demora de ponteiros. Uma música de fundo bem chorona, e toda a vontade do mundo de jamais sair do lugar. Mas assim te perco. Admita, precisamos dessa farsa toda da mesma maneira que preciso passar a base, o pó corretivo e o rímel. Porque atrás disso tudo estou eu. 

E não interesso a ninguém.

 Vulnerável e medrosa e inapta a matar baratas. Sou todas as mulheres do mundo.

E elas nunca te interessaram. Salvo assim, salvo agora.

A gente, aqui, no quarto. Velas acesas e cortina baixa. Protocolos cumpridos. Bebemos um vinho, tu me conta uma piada sem graça. Rio até virar um pouco de vinho na tua camisa. Tem de tirar e passar sal.

Derramar sal dá azar. 
Derramar vinho dá sexo.

Sorrio e escorrego meio vadia pelo teu peito, meio vazia pelo meu peito.

Pulsão sexual, pra mim, sempre foi falta de assunto. 

Dos outros e dos botões.

Dias desses, alguém me falou que os bons relacionamentos não podem ser pautados por sexo.

Pasmei.

Todos os relacionamentos dos quais mais gostei foram pautados guiados suados crivados por sexo.

É ridícula essa polarização alma vs. corpo. Em que ainda a alma resta acima do corpo.

Como se sexo fosse vil.

Isso é catolicismo, não é amor.

Amar é abrir botões.

Amar é todos os dias abrir cada botão da camisa dele, abrir com uma mão só, enquanto a outra vasculha e interroga aquele corpo, como se o jamais tivesse visto.

Como se o conhecesse há décadas.

É enrolar os dedos na tentativa de abrir mais rápido cada um deles, futebol de mesa em seu peito, que se aproxima, e me aproximo junto, tão junto que entre nossos dois corpos não há espaço suficiente para uma alma sequer.

Que se foda a alma.

Não entendo pessoas que precisam de confiança para ter sexo. Sou tão mais modesta, uma camisinha já me satisfaz.

Como confiar em alguém que ouve uma mulher falar horas a fio sem ganhar nada por isso ou estar nu ao seu lado?

Isso não é amor, é tortura.

Como confiar em uma mulher que aguenta o mau-humor masculino após um jogo idiota de futebol sem que à noite ele a faça sorrir?

Nem Capitu dissimula tão bem.

Só confio em casais que têm sexo antes de ter discussões existenciais.

O inferno são os outros,

mas são também parada obrigatória para o paraíso.

Brightside



Você ama ele tanto que ignora que medidas não justificam histórias.

Ele ama você, e ama mais você porque você não tem coragem de demandar amor em monopólio. Marx ficaria orgulhoso de você, enquanto se revira na cama e dá um nome para cada uma delas, as outras mulheres que ele ama também.
Você quase tenta amá-las: são parte dele, afinal.

São sua cabeça, sua cabeça e as costas dele arranhadas por cada uma delas, e o seu coração arranhado por todas. Amor não é exclusividade: você quer ser pós-moderna, você quer ser Simone. 

Você quer ele só pra si, quer ser Simone para que ele seja Jean-Paul. É mentira, você é fraca, você quer ser Sylvia e se matar de amor. O gás que você abre e escorre por seus dedos, o gás de listá-las, o gás dele fazendo graça com elas também, as mesmas brincadeiras, será que ele muda as brincadeiras?

Não o sexo. Homens só têm um jeito de fazer sexo, com algumas variações. Você conhece o rosto dele, aquele contorcimento mínimo, o espesso da voz, agora pré-silábica, você conhece tão bem que não é difícil mudar o cenário e a atriz. Ela é sempre mais bonita, mais sexy, mais gostosa que você. Você pensa que não é difícil de encontrar isso, principalmente se for ele, que você vê como o alvo último da sedução. E se não for assim,  mas como não ser, logo ele, e o jeito dele de sorrir e de flertar e brincar com a mão,  o jeito dele, arma universal e onipotente para seduzir. Para seduzir você, e nisso você vê o mundo inteiro, e treme e gela enquanto observa, sim, você, espiã da sua própria imaginação, enquanto escondida assiste a ele tirando a roupa dela, demorando aquele tempo crítico no sutiã.

Você tem trabalho a fazer. Sacode automática a cabeça:  quer desequilibrá-los. Abre um documento estúpido do Excel e começa alguma tarefa manual, que estúpidas são as tarefas manuais, só tem uma que você gosta, não, não, cerra a imagem dentro de alguma caixa de traumas inventados. Começa a trabalhar enquanto ele deve estar tomando um banho, mais um corpo escorrendo de seu corpo, mais uma ilusão escorrendo pela sua testa.

Você, a maior aliciadora de mulheres que ele já teve.

Resquícios

Depois da despedida,
Serás pedra e arte.

Chorarei no embarque do avião.
Olharás para o outro lado.

Dois livros que nunca lerás.
Minha posteridade na tua estante.

Dois corpos que se tocam
e dormem encostados.
Nunca se amaram

por medo da palavra.

tão cultos tantos autores tantas obras
tantas crí-ti-cas li-te-rá-rias

e tanto medo.

Nenhum dos dois quer passado.
Liberdade é não ter memória.

Desembarques


Você vai estar lindo. Eu vou estar ansiosa, checando as passagens e o passaporte mais uma vez. 

Nessa hora você não vai mais estar lá, e já estarei chorando. Exatamente como agora.

Você não vai mais estar lá, na minha vida, no meu fim de semana, no meu fim de mês.

Você vai se resumir às minhas histórias. Ao dia em que a gente se conheceu.

E a vida, esse emaranhado caótico de acasos, continuará impassível. Exatamente como se eu jamais houvesse conhecido você.

Dentro de mim, um mar de desespero, mar trancado em um corpo, mar tornado lago pela distância do oceano. 

E a água se revoltará e transbordará pela minha pele, pelos meus olhos.

Cada copo de água que eu tomar será uma homenagem póstuma à perfeição cósmica do teu sorriso.

Cada garrafa que eu terminar será uma homenagem à irrepetibilidade onírica do encontro.

Em meses, quando você não lembrar mais meu nome, também não o lembrarei. 

De que importa meu nome? Dele decorrem todas as desigualdades, todas essas cercas e arames farpados.

De que importa meu nome fora da tua boca? 

Curto, pela metade, um Leti. Você nunca precisou chamar pelo meu nome inteiro para que eu estivesse lá.

Sempre tive medo de chamar pelo teu.

Nomes continuam no céu da boca quando as constelações mudam de trópico.

Constelações.

Foi um dos nossos primeiros assuntos, constelações.

Falar de estrelas é nossa maneira de se apoderar da eternidade.

Você, tão maduro, e eu, tão boa em fingir maturidade para depois despejar textos como este por aqui, meu refúgio último, paradoxalmente cheio de ti, sem que jamais revelasse teu nome.

Não escrevo propriamente de ti. As únicas descrições que existem são metafóricas, hiperbólicas, ficcionais. Mentira. 

As tuas descrições, aqui neste blog, aqui neste texto, são as únicas possíveis. 

Você suplanta as descrições mundanas. Teu peso e tua cor da pele não revelam nada sobre ti. Você é exatamente isso, mágica e chuva.

Não posso catalogar teu rosto em triângulos gregos ou em uma paleta de amarelos. Teu rosto é a luva das minhas mãos.

Teu corpo é a sede que eu desconhecia.

Nossa história, uma estação de metrô confusa, linhas vermelhas, verdes e azuis que pouco se importam com a continentalidade das coisas, que se interligam pelo subterrâneo da palavra não-dita.

Você nunca me prometeu nada. 

Você nunca me prometeu nada e cumpriu mais que todos os outros juntos.

Você nunca reivindicou posse do meu coração, e ele nunca foi tão fiel a alguém. 

Ser fiel de coração e ser fiel de corpo são coisas diferentes.

Fidelidade de corpo não tem nada a ver com amor, mas com posse e direitos feudais de propriedade.

Fidelidade de coração é escolher todos os dias estar contigo.

Estar contigo pela suavidade do momento, pelo cheiro da pele, pela familiaridade da voz. 

Querer estar só contigo e não ver nisso imposição, mas naturalidade.

Você mudou minha vida e não me pediu amarras ou provas de afeto.

Você mudou minha vida porque é isso que você tinha de fazer.

Você é um ser humano extraordinário.

Espero que eu tenha coragem de te dizer isso antes de embarcar no avião.

Universos


Você carrega uma constelação nas costas. As quatro pintas. Um sorriso. Não, melhor: uma lua crescente. Isso, uma lua. Lua que eu tento formar, juntando os pontos com uma bic azul. Tento contornar cada uma das tuas pintas, juntá-las, imagem e sentido brotando dos meus dedos. 

Quero luau. Acender fogueira e ficar bêbada nas tuas costas. Do teu cabelo meu mar, então me afogo e jogo uma rosa na tua boca. Para Iemanjá. 

Me visto de branco com os lençóis e danço alucinada em transe em roda nas tuas costas. 

As quatro pintas me iluminam.

Corro nua pela areia da tua pele, as ondas gemem de leve. Encosto em cada uma delas. 

As quatro, marrons como quem é apaixonado pelo sol. As quatro formando essa lua crescente sem fim. Busco de novo a caneta, quero terminar, você nunca me deixa terminar de desenhar a lua, não entende que ela já estava ali traçada antes de mim.

Você não entende que é sempre luar.

É sempre luar nas tuas costas. 

Ri, se revira e alega cócegas.

Só pessoas perfeitas sentem cócegas na lua.

Ainda


Raça maldita. Que nos cubram, que nos arranquem os pêlos, que nos apedrejem, que nos enfiem silicone, que nos condenem à fome perpétua, que nos estuprem por sermos freiras, que nos estuprem por sermos fêmeas.

Nós ainda pediremos pela proteção de vocês.

Vocês e seus deuses que nos odeiam. Seus deuses que nos querem de pernas abertas em silêncio. 

Seus deuses são pervertidos. 

Nós ainda amamentaremos vocês.

Vocês rezam e temem e se enchem de ouro porque assim quiseram seus deuses. Que cômodo, inventar um deus que te beneficia e te considera superior. 

Vocês nos querem nuas de salto alto. Objetificadas nos outdoores de suas ruas. Vocês nos querem invisíveis dentro de um saco preto. Vocês nos querem subjugadas. Todas. De todos os lados, de todos os tipos e hemisférios. Vocês nos querem putas. E quando putas, vocês querem nos espancar em uma calçada à luz da manhã. 

Nós ainda despertaremos vocês.

Vocês nos querem puras. Puras para gritarmos de dor quando o pênis de vocês invadir nosso corpo. Puras para sangrarmos mais uma vez no mês. Para que vocês se sintam fortes, viris, másculos rompendo vigorosamente uma camada de pele com a espessura intransponível de uma cutícula. Bravo.

Nós ainda fingiremos orgasmos por vocês.

Vocês nos querem. Vocês nos querem e não sabem como querê-lo. Então nos escondem e nos reivindicam. Então nos amordaçam e nos condenam a uma sopa por dia. Um pequeno genodício diário. Todo o ser humano que somos e que vai morrendo a cada dia, de fome, de angústia, de dor, de aids, de cansaço, de humilhação, para que sejamos mulheres. Para que sejamos suas mulheres, e vocês possam dormir sossegados. 

Nós ainda contaremos nossos sonhos para vocês.

Porque ainda que sejam imbecis, ainda que não saibam se expressar, ainda que não saibam abraçar, ainda que não entendam filmes e jamais tenham lido um livro; ainda que não saibam se vestir, ainda que não saibam cozinhar, ainda que nos queiram pornográficas passando a roupa, vocês podem nos aprisionar em nós mesmas e dormirem sossegados.

Nós ainda amaremos vocês.

Desvãos

Eu não sei quando você volta.

E todos os dia a espera nunca é em vão

Porque você chega amanhã.

Você sempre chega amanhã.

Saltimanca


Sei bem quais são os riscos: gravidez indesejada, aids, coração partido, incompatibilidade, tédio. Com a força dos que já foram abandonados, alcanço tua mão.

Com a camisinha evitamos o que der. O resto é arriscar.

Os abismos crescem à medida que não são saltados.

Eu, saltimbanca das tuas costas.

Palhaça, mágica, trapezista, leão, contorcionista, elefante, domador e jaula.

A você só cabe pagar pra ver.

Sentar no camarote das minhas histórias e aplaudir.

 Eu e minha tenda vermelha por onde danço e com meu dedo traço o contorno das tuas sobrancelhas.

Arqueio-as um pouco.

Pinto teus cílios de verde.

Você olha discretamente para o relógio. Meu peito badala doze vezes.

Rezo que você esteja bem, que você esteja perto, que você esteja a salvo.

Sou eu que estou perdida. Sou eu que estou distante e em perigo.

Você não percebe? Não me percebe com o leão dentro da cabeça? Presa fora dessas grades onde todos parecem tão confortáveis. Assustada.

Na jaula todo leão é gato. Todo rugido é bocejo.

Você considera minha liberdade extraordinária, e ela me mata.

Quero clausura.

Enquanto você puder admirar minha inconsequência, minhas risadas puras, meus passos em falso, minha ingenuidade vital, você se interessará por mim.

Enquanto viver, me interessarei por ti.

Minha intensidade, meu drama, meu chão e meu céu nas tuas pálpebras.

Eu por inteira nas tuas mãos.

A borboleta quer ser fincada na parede.

Eu, livre em excesso, ansiando por um prato de ração e garotos me atirando pipoca.

Eu, meus discursos prontos e minhas verdades sartreanas.

No fundo, um pequeno canário com medo da área de serviço.

Cantaria melhor se me sentisse em segurança.

Se estivesse presa, você não se interessaria mais por mim.

Eu perderia meu desespero. Eu perderia você.