Sei bem quais são os riscos: gravidez indesejada, aids, coração partido, incompatibilidade, tédio. Com a força dos que já foram abandonados, alcanço tua mão.
Com a camisinha evitamos o que der. O resto é arriscar.
Os abismos crescem à medida que não são saltados.
Eu, saltimbanca das tuas costas.
Palhaça, mágica, trapezista, leão, contorcionista, elefante, domador e jaula.
A você só cabe pagar pra ver.
Sentar no camarote das minhas histórias e aplaudir.
Eu e minha tenda vermelha por onde danço e com meu dedo traço o contorno das tuas sobrancelhas.
Arqueio-as um pouco.
Pinto teus cílios de verde.
Você olha discretamente para o relógio. Meu peito badala doze vezes.
Rezo que você esteja bem, que você esteja perto, que você esteja a salvo.
Sou eu que estou perdida. Sou eu que estou distante e em perigo.
Você não percebe? Não me percebe com o leão dentro da cabeça? Presa fora dessas grades onde todos parecem tão confortáveis. Assustada.
Na jaula todo leão é gato. Todo rugido é bocejo.
Você considera minha liberdade extraordinária, e ela me mata.
Quero clausura.
Enquanto você puder admirar minha inconsequência, minhas risadas puras, meus passos em falso, minha ingenuidade vital, você se interessará por mim.
Enquanto viver, me interessarei por ti.
Minha intensidade, meu drama, meu chão e meu céu nas tuas pálpebras.
Eu por inteira nas tuas mãos.
A borboleta quer ser fincada na parede.
Eu, livre em excesso, ansiando por um prato de ração e garotos me atirando pipoca.
Eu, meus discursos prontos e minhas verdades sartreanas.
No fundo, um pequeno canário com medo da área de serviço.
Cantaria melhor se me sentisse em segurança.
Se estivesse presa, você não se interessaria mais por mim.
Eu perderia meu desespero. Eu perderia você.
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