domingo, 30 de março de 2014

Depois da Páscoa


É Páscoa. Estamos no mercado. Chocolates ao redor. Em uma das gôndolas, um pacote de camisinhas senta esquecido, ao lado de coelhinhos dourados Lindt. Começo a rir, regardeolha aqui, te puxo, essa pessoa aqui teve de decidir, sexo ou chocolate. 

Fez a escolha certa. Chocolate, sempre.

E tu, o que tu preferes?

Tu não diz nada, divertido com a cena.

Então pego a camisinha.

Ué, tu vai levar?

Não, é que não quero as crianças vindo pegar chocolate e dando de cara com uma camisinha, respondo, ainda meio rindo.

Meu súbito moralismo latino-cristão te pega desprevenido, e vejo nos teus olhos como tu não entende direito como minha devassidão e meu puritanismo possam ser assim, vizinhos de sorriso.

Pula a cena.

Estamos, uns minutos depois, em uma padaria, também pascal. Os chocolates artesanais são lindos. Então tu me diz "escolhe um pra ti".

Não sei direito o que que é, mas algo no teu tom de voz me ressente profundamente. 

Era assim que meus pais diziam também, escolhe um pra ti. 

Acho que a frase me infantiliza, não sei direito o porquê, queria escolher junto contigo, queria te escolher, queria que minha escolha fosse óbvia para ti, sei lá, e no meu recalque, ainda mais infantilizador que a infantilização sentida, pego um saco de ovinhos e vou pro caixa. Não te deixo pagar de jeito nenhum.

Se sou eu que escolho, sou eu que pago.

Tu sai de cena outra vez.

Os olhos se mareiam de lágrimas, a aula está insuportável e na minha memória dissolvida ficaram só esses farelos de diálogo. Já nem lembro direito da tua voz, do teu rosto, do teu pescoço.

Pago todos os dias, sozinha, a escolha que fiz.

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