Um dia você vai desaparecer por completo dos meus reflexos. Da vontade de chorar. Da inadequação social. Do meu olhar para o nada por minutos.
Um dia você vai desaparecer da mão agitada procurando rivotril. Da memória pesada como pedra. A pedra na qual o suicida amarra a perna antes de se atirar da ponte.
Um dia você vai desaparecer das pontes. De cada uma delas. Das tantas pontes que me levavam a ti. A Pont des Arts será a última.
Um dia você vai desaparecer do vento. Das formas das nuvens. Da tristeza infinita que o céu guarda. Das gavetas. Das paredes. Daquela reprodução de Degas que você me deu.
Um dia você vai desaparecer da angústia. Da insônia. Das minhas unhas.
Um dia você vai desaparecer das imagens. Do meu jeito de te amanhecer tão longe. Das minhas costas. Do futuro.
Um dia você vai desaparecer das roupas. Daquela meia-calça rasgada. Dos tíquetes usados de metrô. Dos filmes que a gente viu. Dos sorvetes que a gente dividiu. Dos morangos.
Um dia você vai desaparecer dos meus orixás. Da maquiagem borrada. Do dinheiro economizado. Da minha febre.
Um dia você vai desaparecer das histórias. Da bebida. Do desespero. Da vontade de sumir do mundo.
Um dia você vai desaparecer dos contornos do meu corpo.
Um dia você vai desaparecer dos contornos do meu corpo.
Um dia você vai desaparecer das alucinações antes de dormir. Do espaço que deixo para você na cama.
Do espaço que deixo para você em meus olhos.
Do espaço que deixo para você em meus olhos.
Do espaço que deixo para você em meu sangue.
Um dia você vai desaparecer do espanhol. Do jeito de segurar a cabeça. Daquele sorriso que você botou lá. Das músicas que não danço mais. Dos copos que quebro. Dos amigos que se afastam.
Um dia você vai desaparecer dos meus seios. Do canto da minha voz. Do outro lado do espelho. Do outro lado do oceano. Do outro lado de um dia ruim.
Um dia você vai desaparecer da esperança do inesperado.
Que viver é desaparecer aos pouquinhos.
E amar em excesso
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E amar em excesso
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