domingo, 30 de março de 2014

notas de rodapé


acho muitíssimo complicado que a fala da gente não venha com notas de rodapé. 

que quando eu te disse, lembra, "eu sei que a gente não pode ficar junto, nunca ia dar certo", que não tivesse um numerozinho na testa do o, para no rodapé da boca eu dizer junto, sub-reptício, mas claro, eu sei que não, é bobagem, é infantil tentar, é longe demais, é tão pouco de pele, nunca vai funcionar, mas o que eu queria dizer, de verdade, é que não me importa. 

não me importa que seja difícil, quero tentar, eu quero chorar no skype, no telefone, eu quero jantar te olhando na tela, eu quero sentir raiva da distância, maldizê-la, vociferá-la, mas não a deixar vencer assim, impune do meu desespero. não vai funcionar, eu sei, tu sabe, todo mundo que tentou sabe, mas é a única coisa que faz sentido agora, é ser disfuncional nesse mundo tão ordenado, ser completamente disfuncional e feliz, feliz, feliz contigo.

mas a dor da gente não tem rodapé, então só te disse essa parte, que sei que não funcionaria, e chorei e tu me disse para parar de chorar, e nunca consegui parar e tu me deixou no aeroporto e desde lá não sei direito onde eu estou, porque as pessoas não têm nenhuma nota de rodapé no canto da boca, só os dentes que se mordiscam e então a vontade de te falar tudo isso agora, sem nota de rodapé, no corpo do texto, no teu corpo, rabiscado do meu. 

e isso às vezes me deixa um pouco triste, principalmente hoje, que é o dia em que estou livre, depois de tanto tempo, e podia, se a gente tivesse tentado, estar correndo praí agora, me dá a primeira passagem, parcela em dez vezes, quem é que tem a chance de pagar o ano todo por um sonho tão grande assim? 

mas não teve nota de rodapé, nem corpo de texto, só os nossos se afastando, e eu procurando meu assento, 32F, é aqui, com licença, sim. coloco um filme triste para fingir que preciso de outra história para chorar. é tomboy, meu assunto do coração, que vou assistindo enquanto ele e eu partimos, altitude e descomeços.

se a gente tivesse tentado, se minha boca tivesse uma nota de rodapé, em vinte horas, mais ou menos, a gente poderia estar comemorando o fim da distância, o começo dos pés. não sei por quanto tempo eu te abraçaria, ou se eventualmente conseguiria te soltar, meu deus, e minha boca não teria espaço nem para texto, nem para rodapé, nem para nada mais que não fosse suspiro ou afeição.

ou a gente teria se separado no meio do caminho, porque essas coisas não funcionam mesmo.

mas ainda assim queria que tu tivesses lido, na curva dos lábios, que no fundo eu queria ter tentado. ainda que eu te citasse errado, ainda que não soubesse te traduzir direito, ainda que tu fosses sempre essa minha tradução livre, que eu entendia como bem quisesse, e tão bem te queria, queria que tu soubesses que me dói não ter chegado no fim da ideia, no canto da ideia, que era dizer "vai dar errado, eu sei"[1].




[1] mas dar errado contigo é a ideia mais bonita que já tive.

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