Esfacelada de memórias e pele, quantas palavras valem uma imagem? Mentira! Não são mil ou cinco mil ou vinte mil.
50 mil palavras, escrevi 50 mil palavras sobre ti e tua imagem não tem retorno. E as pessoas que leram uma ou todas ainda não fazem ideia do deslumbrante que é o canto da tua boca, do quão cansado acordar te faz, mas que mesmo assim tu me estendia a xícara de café que pegava trêmula. Mais de um ano, trezentas xícaras que peguei trêmula, porque não via futuro na borra do café, e levantava desesperada o rosto e não via futuro na borra dos teus olhos, e minha vida inteira então sacolejava às dez horas da manhã, como se já estivesse no avião que me levaria com duas escalas para o abismo.
Ontem estraguei minha cafeteira, de tanto que procurei por tuas mãos dentro dela. Aprendi que o café nascia dos teus braços, esquentava no teu primeiro bocejo, como se passasse da tua boca para a minha. Da mesma maneira que tu passou um jeito enorme de sorrir da tua boca para a minha, e agora a cafeteira não funciona e meu sorriso não funciona e os dois perderam a garantia. Bobagem, tu era a garantia dos dois, e não tenho ideia de como vou fazer hoje, como não tive ideia alguma de como eu ia fazer em cada dia desse amontoado de dias que vou guardando como rancor embaixo das costelas.
Ontem estraguei minha cafeteira, de tanto que procurei por tuas mãos dentro dela. Aprendi que o café nascia dos teus braços, esquentava no teu primeiro bocejo, como se passasse da tua boca para a minha. Da mesma maneira que tu passou um jeito enorme de sorrir da tua boca para a minha, e agora a cafeteira não funciona e meu sorriso não funciona e os dois perderam a garantia. Bobagem, tu era a garantia dos dois, e não tenho ideia de como vou fazer hoje, como não tive ideia alguma de como eu ia fazer em cada dia desse amontoado de dias que vou guardando como rancor embaixo das costelas.
Mas continuo tentando, em vão, que é a maneira mais bonita de tentar, vou tentando. Com mais palavras, talvez, com cem mil ou um milhão, tua imagem finalmente me apareça, como me apareceu hoje no sonho, e fiquei tentando dormir de novo, e tu sorria tanto e me beijava e eu corria para a tua casa de pijama, alguém me estendia a chave e me dizia, vai lá, e eu corria por um campo até chegar e distinguir tua silhueta fumando no terraço e te abraçava e de repente a gente se beijava para sempre e quando acordei não pude nem ter o café que tu me fazia, nem o bem que tu me fazia.
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