Quando tu estava lá, no topo do mundo, sentada em cima do teu coração, tu reparou, naquela hora, que tu não estava sob uma montanha, mas um precipício? E quando tu dançou e perdeu o equilíbrio em suas bordas, conseguiu ver que ao teu redor, não eram nuvens, mas fumaça?
Quando o fogo começou e tu pensou que nada te atingiria ali, no topo do mundo, quanto da tua certeza tornou o ar rarefeito?
Quando teus amigos te chamaram, como bombeiros arriscando a vida no meio dos destroços em perigo do teu coração, foi impossível segurar suas mãos. Só a mão dele alinhava, no encontro das palmas, o destino que tu queria pra ti.
Quando não sobrou mais nada, tu viu que o topo do mundo era um apartamento pequeno, sem sacadas, onde no sofá se passavam os maiores congressos do mundo, na mesa, as mais incríveis criações culinárias e, na cama, os maiores filmes do mundo e as cenas mais inesquecíveis entre o que não se deve contar assim, tão em público pro que era tão só vocês dois.
Quando não havia mais coração onde sentar em cima, tu te atirou. E o precipício é o início de todo voo. Então tu te descobriu ave e, como ave, teve de voar de volta pro sul.
Quando o sul não era mais um lugar, mas um descaminho, era tarde demais. As asas duram só o tempo dos sonhos da gente.
E então nunca mais houve um quando que importasse, e toda migração foi silêncio, e toda ruína abaixou os ombros, e toda a tristeza abalou os olhos, a solidão foi tão violenta que fez dos teus pulsos vulcões, e tu nunca mais foi capaz de olhar muito longe, e o medo foi tão enorme que tu nunca mais pôde escalar teu próprio coração para sentar, novamente, no topo do mundo.
E o topo do mundo, que é mais um sentimento que um lugar, vai se aproximando cada vez mais do chão, cada vez que tu tenta lembrar como ele era, em vez de criá-lo outra vez.
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