domingo, 30 de março de 2014

Peito e Paleta


People disappeared, reappeared,
made plans to go somewhere,
and then lost each other,
found each other a few feet away.

Fitzgerald


Tu não nota, mas é meu continente que fico desenhando no teu peito, com a ponta do indicador esquerdo. Ou da língua, depende do ato. Minha cidade fica ali embaixo, no limiar entre corpo e carne, onde aperto com mais força pra tu saber de onde vim. Tenho a impressão de que mesmo por cima do teu corpo ainda passo despercebida, mas aí é loucura minha. Tu é loucura minha, por isso te mapeio assim, com street view e tudo, no gesto. Se tu fosse uma cena de crime, seria condenada sem dúvida, minha digital repetida em ti, uma para cada vez em que a respiração acelerou a ponto da biometria ser a única diferenciação possível entre meu corpo e o teu.

Contorno teu continente no ombro direito e fico brincando de voar da minha cidade pra tua, só por enquanto, enquanto é tão fácil assim. Não sei no que tu tá pensando, uns silêncios, uns sorrisos satisfeitos me bastam quando estou assim, ensaiando minha partida para longe do teu ombro direito, pro dia em que não vou, de jeito nenhum, aterrissar no fim da tua coxa.

Agora nem sei mais se quero voltar, se existe algum retorno possível, mas lembro de ti e acho que ia ser bom estar assim, a uma medida de pele de distância, para dias como este, em que sinto a vida toda tão distante de mim que as lonjuras todas crescem e se alojam enorme no meu medo do futuro, que cresce e cresce e vai me engolindo, me diminuindo até eu ter o tamanho que a covardia exige da gente. E te ligaria agora para te contar de algum sonho inventado, se tu não fosse um DDI improvável no canto da memória, se eu ainda soubesse inventar sonhos.

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