domingo, 30 de março de 2014

A distância e as paredes.


Você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto

(Leminski)


Quando a distância toma conta da gente, feito possessão de longitudes, estar longe é a única coisa que a gente pode fazer. Distante é tudo que a gente pode ser, e o lugar onde a gente está não é coisa nenhuma, como se grades não tivessem endereço, apenas esperas guardadas. Ninguém pode ser punido com a distância, porque a distância faz coisa pior que punir, a distância apaga. 

Tu vai te apagando, como uma vela imensa de pavio curto. De fora, as pessoas têm certeza de que a vela continua viva, grande. Mas sem pavio, o fogo se foi. 

Sem o fogo, a vela não tem sequer a premissa de derreter inteira para iluminar alguém. Para esquentar alguém. Nada. E uma vela que não morre de seu próprio fogo é uma vela tristemente condenada à poeira esquecida das vidas longas. Condenada à imobilidade, ao anonimato de quem perdeu a mágica de projetar sombras na parede. Uma vela que não pode mais ser soprada é uma vela que jamais sentirá a brisa da boca nos ouvidos, é uma vela que vai viver para lembrar o único instante em que ela ardeu, que se queimar em sim mesma  é como a vela gosta de estar viva.

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