No meu primeiro dia, não queria dormir. Entendam, enquanto me mantivesse acordada, ainda o teria visto naquele mesmo dia.
Dormir significaria transpassar uma barreira perigosa: ao acordar, faria um dia que não o veria. Um dia ao qual todos os outros sucederiam naturalmente e, em segundos, faria mais tempo que eu não o via do que o que poderia suportar.
Dormir não era possível.
Mas sou fraca e dormi. E com o sono, o que era real, o que era carne e abraço, tornou-se memória. Que hoje se solidifica como passado e que a cada dia será mais ilusão e aperto.
Dormi e ao acordar já fazia um dia. Um dia desde que tudo que vivera como magia e permanência chegara ao fim. Um dia desde que tinha acordado ao lado dele. Um dia desde que tinha olhado pra janela e visto aqueles prédios típicos. Um dia desde que comprara croissants pela manhã. Um dia desde que olhara para o Sena e imaginara como devia ser viver ali sem medo de uma data terrível cada vez mais próxima, até que ela me engolisse. Um dia desde o aeroporto e aquela voz me dizendo em um português coisa-mais-linda-do-mundo "não chora". Um dia desde que chorei tanto. Mais um dia. Mais um.
Dormi e, por culpa desse meu desleixo, agora ele não passa de memória. Dormi e agora ele está perdido. Era só ter mantido os olhos abertos e ainda agora o teria tocado, teria apertado firme seu braço e brincado pelo seu peito ainda hoje, mas dormi.
Como é ruim dormir longe de alguém que dormia tão bonito.
Dormir longe até que o corpo seja uno mais uma vez.
Até que o corpo se acostume à presença silenciosa dos lençóis.
Não quero mais que aconteça, e estou certa de que não acontecerá. Não assim, com tanta admiração. Desprezo pessoas. Não julgo se é bom ou ruim, mas atesto: desprezo pessoas. Um erro de português, um comentário machista, um brado homofóbico e a pessoa é riscada sem remorso da minha lista de contatos.
Ou seja, nunca mais. Nunca mais algo que combine tanta admiração com tanto afeto e, ao mesmo tempo, tanta liberdade. Paris não acontece duas vezes.
E, agora que já dormi, Paris volta a ser o que foi por anos, aquele sonho inatingível e místico, cheia de pontes e gente fascinante por atravessá-las.
Eu, na contramão, atravesso oceanos.
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