Você vai estar lindo. Eu vou estar ansiosa, checando as passagens e o passaporte mais uma vez.
Nessa hora você não vai mais estar lá, e já estarei chorando. Exatamente como agora.
Você não vai mais estar lá, na minha vida, no meu fim de semana, no meu fim de mês.
Você vai se resumir às minhas histórias. Ao dia em que a gente se conheceu.
E a vida, esse emaranhado caótico de acasos, continuará impassível. Exatamente como se eu jamais houvesse conhecido você.
Dentro de mim, um mar de desespero, mar trancado em um corpo, mar tornado lago pela distância do oceano.
E a água se revoltará e transbordará pela minha pele, pelos meus olhos.
Cada copo de água que eu tomar será uma homenagem póstuma à perfeição cósmica do teu sorriso.
Cada garrafa que eu terminar será uma homenagem à irrepetibilidade onírica do encontro.
Em meses, quando você não lembrar mais meu nome, também não o lembrarei.
De que importa meu nome? Dele decorrem todas as desigualdades, todas essas cercas e arames farpados.
De que importa meu nome fora da tua boca?
Curto, pela metade, um Leti. Você nunca precisou chamar pelo meu nome inteiro para que eu estivesse lá.
Sempre tive medo de chamar pelo teu.
Nomes continuam no céu da boca quando as constelações mudam de trópico.
Constelações.
Foi um dos nossos primeiros assuntos, constelações.
Falar de estrelas é nossa maneira de se apoderar da eternidade.
Você, tão maduro, e eu, tão boa em fingir maturidade para depois despejar textos como este por aqui, meu refúgio último, paradoxalmente cheio de ti, sem que jamais revelasse teu nome.
Não escrevo propriamente de ti. As únicas descrições que existem são metafóricas, hiperbólicas, ficcionais. Mentira.
As tuas descrições, aqui neste blog, aqui neste texto, são as únicas possíveis.
Você suplanta as descrições mundanas. Teu peso e tua cor da pele não revelam nada sobre ti. Você é exatamente isso, mágica e chuva.
Não posso catalogar teu rosto em triângulos gregos ou em uma paleta de amarelos. Teu rosto é a luva das minhas mãos.
Teu corpo é a sede que eu desconhecia.
Nossa história, uma estação de metrô confusa, linhas vermelhas, verdes e azuis que pouco se importam com a continentalidade das coisas, que se interligam pelo subterrâneo da palavra não-dita.
Você nunca me prometeu nada.
Você nunca me prometeu nada e cumpriu mais que todos os outros juntos.
Você nunca reivindicou posse do meu coração, e ele nunca foi tão fiel a alguém.
Ser fiel de coração e ser fiel de corpo são coisas diferentes.
Fidelidade de corpo não tem nada a ver com amor, mas com posse e direitos feudais de propriedade.
Fidelidade de coração é escolher todos os dias estar contigo.
Estar contigo pela suavidade do momento, pelo cheiro da pele, pela familiaridade da voz.
Querer estar só contigo e não ver nisso imposição, mas naturalidade.
Você mudou minha vida e não me pediu amarras ou provas de afeto.
Você mudou minha vida porque é isso que você tinha de fazer.
Você é um ser humano extraordinário.
Espero que eu tenha coragem de te dizer isso antes de embarcar no avião.
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